Mostrando postagens com marcador Pílulas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pílulas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de março de 2010

Praia

Dormia na praia, mas sonhava acordado. Se cobria com promoções de televisores e aparelhos de som, anúncios de casas novas e fotos de famílias felizes. Pura imaginação, pra ele. Sua família eram os moleques que ele ajudava roubando alguém aqui ou ali. Tudo que possuía podia carregar consigo aonde fosse. Um monge tibetano desprovido de conhecimento. Não ligava pra nada além da próxima refeição, sendo que esta poderia levar mesmo alguns dias. Não entendia o porquê das pessoas gostarem de ficar estiradas na areia. Aquilo pra ele era quase um martírio, apesar de ser a sua casa. Não gostava de ninguém em sua casa. Às vezes sacava de um canivete, e saía correndo atrás de velhinhas gorduchas enroladas em toalhas de praia, grandes chapelões e óculos de sol, gritando asneiras e exclamando que estavam todos invadindo seu território. Era maluco, o coitado.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Números

Tudo culpa de um gato. Um gato, gato mesmo. Um gato qualquer. Sem raça, sem marca, "pedigree", como dizem. Pelo menos imagino que não. Não faria muito sentido um gato de dentro de casa na rua naquela hora. Ainda mais cruzando a estrada. E foi tudo culpa dele. Uma da manhã, e aquele bicho de olhos brilhantes atravessando na minha frente. No susto, joguei o carro pro lado. Acertei em cheio uma van que vinha no outro sentido. Três pessoas no meu carro, mais onze no outro. Bombeiros, ambulância, polícia. Repórteres. "Culpa do motorista do carro", gritavam. "A van vinha muito cheia", berravam outros. "A estrada está em péssimo estado", falavam alguns se aproveitando do momento em benefício próprio. No final, ficam os números. Uma estrada, um gato, dois carros, uma batida. Catorze mortos. Entre esses, eu.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Lembranças

Nos conhecemos. Nos interessamos. Frequentávamos os mesmos lugares, tínhamos interesses em comum. Ficamos juntos. No nosso primeiro beijo, fomos tomar sorvete. Ela de brigadeiro, eu de uva. Me apaixonei. Ela não. Fui embora, ela decidiu me esquecer pra não sofrer. Trocamos cartas. A minha última ficou sem resposta. Voltei. Anos depois, nos encontramos durante uma noite chuvosa. Eu, ela, e seu namorado. "Oi", eu disse. "Oi", foi a resposta. "Tudo bem?", questionei. "Sim. Com você?", replicou. "Também. Bom, vou indo". "Ok, eu também. Tchau!". "Tchau". Nem era ela no final das contas. Não de verdade, quero dizer. Era ela, mas "ela" já era outra pessoa. Ninguém que visse a cena imaginaria que um dia houve um "nós". Não que fizesse muito diferença, aliás. A pessoa que amei provavelmente não existia já há algum tempo. Agora, tanto faz.