Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

(In)Determinações...

Quem decide o que é humano ou não? A quem foi dado o direito, ou mesmo a simples permissão, de julgar este ou aquele indigno de existência, de simplesmente caracterizá-lo por sub-humano? Porque tornou-se tão comum que, caminhando por uma rua qualquer, ignoremos como simples paisagem outros tão parecidos com nós mesmos? Aquela pessoa envolta em um saco de comida de cachorro, aquela criança que tenta se aquecer em um cobertor imundo e mal-cheiroso, ou aquele homem que se encolhe sobre um carroça dura de madeira, deixam de ser seres humanos e são transferidos para um estado de semi ou sub-humanidade, onde passam a não mais existir, pois fundem-se àquilo que possuem à sua volta: passam a ser apenas um saco de comida de cachorro, um cobertor imundo e uma carroça velha. A carne que ali luta para não definhar de fome, e os ossos que tremem tentando não se render ao ar gélido de mais uma noite fria e sem esperanças passam a não existir mais, porquê? Porquê a vergonha de nossos pobres, porquê a resistência em reconhecer sua existência? É tamanha a humilhação em reconhecer que falhamos com nossos semelhantes? Julgamo-nos tão superiores àqueles que habitam os cantos escuros de nossas ruas, de nossas cidades, de nossas mentes. Será por possuirmos um mero nível de educação? Porque sabemos ler, escrever? Isso nos torna realmente tão mais importantes, mais humanos, ou mesmo mais reais que tanto outros que não são como nós, que não possuem um assim-dito conhecimento sobre tudo aquilo que julgamos importante? A realidade é supervalorizada. E assim o digo, pois ela assim como tudo aquilo que julgamos como certo em nossas vidas, é absolutamente relativo. A minha realidade não é a sua realidade, que não é igual à realidade do seu próximo, e assim por diante. O mesmo conhecimento que para você é essencial, para qualquer outra pessoa pode não passar de informação inútil, sem valor. E a recíproca é verdadeira.

Como saber, inclusive, quem são esses que vivem entre as sombras de cada prédio de cada cidade imunda e vil? Como acreditar que aquele escondido entre trapos é pior do que você, um vazio sem conhecimento ou idéias próprias, quando após tanto tempo vendo-o dormir sempre que passa, você o pega lendo um livro? Escrevendo, ou mesmo apreciando conscientemente uma revista de arte? O absurdo é palpável, mas verdadeiro. A enorme barreira que julgamos nos separar daqueles que pretensamente “sub-habitam” nossos espaços cotidianos começa a ruir, pouco a pouco, apenas para desmoronar definitivamente quando descobrimos, ocasionalmente, que entre estes existem professores, policiais, e tantos outros que, algum tempo antes, passariam por você despercebidamente, mas dessa vez por ser, segundo seu próprio julgamento, seu semelhante.

A pior cegueira não é daquele que não deseja ver, ou conhecer. A pior cegueira é a ignorância consciente, a ignorância que submete tudo aquilo desconhecido ao status de nada, de inexistente. E a pior ignorância é aquela que simplesmente não se dá ao trabalho de reconhecer que ali, sentado no chão frio e coberto por jornais e trapos imundos, está o reflexo da própria sociedade que cultiva, a figura espelhada e negativa de sua própria imagem.

Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Foco - Capítulo 5



Angelo. Bonito nome, não acham? Ele achava. Era o nome de seu avô, afinal. Bem foi dito que chegaria um momento em que seu nome seria não importante, mas de certa forma um pouco necessário. E não há hora melhor para se nomear as pessoas do que quando existe mais de uma sobre quem se falar. Pois é exatamente a situação em que nos encontramos. Existem duas peças no tabuleiro, e tudo que nos resta é esperar para ver qual será a próxima jogada.

Encontros, desencontros, e uma nova maneira de ver o mundo

Quim havia se revelado, com o passar dos dias, alguém cuja personalidade ia muito além do que sua semelhança física com aquele grupo de brutamontes permitiria imaginar. Aquela situação embaraçosa vivenciada por ambos era agora um passado distante, apesar de bem vivo na memória dos dois. Ambos se encontravam, então, numa situação realmente nova para ambos: Quim, pela primeira vez, havia encontrado companhia em alguém que estava longe de estar no meio dos grupinhos mais bem-sucedidos socialmente; já Angelo... Bom, pela primeira vez ele havia encontrando alguma companhia. O mais interessante, na verdade, seria tentar imaginar no que resultaria de uma amizade entre duas pessoas que. a princípio, se mostraram tão diferentes, mas que começavam a descobrir que possuíam mais em comum do que imaginavam.

O primeiro passo, ou “sigam-me os bons!”

-Angelo.
-Senhora.
-(!!!)
-Que foi, Quim?
-Palhaço.
-Também te amo. Agora desembucha.
-Vai ter uma festa lá na cidade antiga hoje à noite. É coisa pra poucos, saca. Convite especial, segurança de cara feia, entrada escondida, essas coisas todas. Tá afim?
-Achei que você era novo aqui.
-Sou novo no colégio, gracinha, não na cidade. Além do mais, ta na hora de você começar a sair daquele teu cafofo fedorento.
-Rá. Engraçadão você.
-Olha – dizia Quim, enquanto escrevia algo num pedaço de papel – o endereço é esse. Onze horas. Me encontra lá.

* * *

Angelo percorria as ruas de pedra da velha cidade como quem coloca os pés em um local novo pela primeira vez. Não que o ambiente lhe fosse estranho, pois aquela era uma de suas regiões prediletas para perambular em seus momentos solitários. Apenas não estava acostumado a vê-la dessa maneira. Ele vagueava pela amurada que separava o velho bairro portuário em formato de semi-círculo do mar aberto, penetrando nas ruelas com pedras de quebra-cabeça como que levado pela brisa noturna que soprava do mar. Percorria as ruas estreitas que serpenteavam por entre as fachadas trabalhadas dos centenários casarões sob a luz amarelada dos postes que procurava imitar a antiga iluminação a gás dessa parte da cidade, proporcionando a ele, ou a quem mais passasse por ali, a impressão de que a cada passo que se desse adentrando a cidade, se retornava uma década no tempo.

Passos vindos de além das escadarias quebravam o silêncio noturno, fazendo imaginar o que acontecia além do que os olhos podiam ver. Logo, porém, todo o suspense de desfazia, ao que Angelo observava a figura desajeitada de Quim descer pelas escadas.

-Demorou, hein? – dizia Angelo.
-Relaxa. To aqui, não to? Então pronto. Agora vamos entrar, que já devem estar achando estranho a gente conversando aqui.
-Como assim, “entrar”? Não tem nada aqui! – respondia nosso personagem, cada vez mais confuso.
-O que você que dizer com “nada”? Não ta ouvindo não?
-Ouvindo o quê?
-Exatamente.

Quim soltava as últimas palavras com um sorriso de puro sarcasmo que cortava seu rosto quase que de orelha a orelha, enquanto saía da luz embaçada para dentro da escuridão de um dos prédios. Ambos seguiam agora completamente às cegas, e no entanto, ainda assim Quim parecia saber exatamente onde pisava.

-Quim?

Silêncio

-Quim? Porra, não to vendo nada! Dá pra dizer por que a gente ta aqui?
-Cala a boca, seu maluco. A gente ta indo pros fundos da casa. Lá que é a entrada. Agora fica quieto e deixa teu ingresso já na mão.

Angelo se encolhia frente aos alertas do amigo, e obedecia buscando em seus bolsos o pedaço de papel amassado.

-EI! – ouviam os dois, ao darem de encontro com duas paredes de carne e osso – Calminha aí os dois. Ingressos?
Quim segurava a mão de Angelo, contendo-o antes que ele entregasse seu “vale-suspense” ao homem de cara amarrada.
-Mas assim, sem nem vocês conhecerem a gente direito? – Dizia Quim para o mais baixo, com cara de mandão.
-Tudo bem. Então, qual a cor favorita de vocês?
-Azul-cereja.

O segurança ria.

-Podiam ter feito uma contra-senha menos idiota. Mas vocês podem entrar. Só prestem bem atenção, não quero ter trabalho com ninguém metido a engraçadinho. E andem logo, que tem mais gente chegando.

Angelo nunca esteve tão confuso.Achara graça quando o amigo dissera que haveria “seguranças de cara feia, entradas escondidas e coisas e tal”, mas agora via tudo se tornar uma realidade extremamente absurda. Sem contar que estava se segurando para não rir na cara do segurança depois de Quim ter dito a contra-senha. “Vermelho-sangue”, ou “cinza-chumbo” estariam mais de acordo com a situação, pensava ele. Mas nada do que ele pensasse ou imaginasse lhe seria muito útil nos momentos que viriam a seguir. Na verdade, ele seria privado de tudo aquilo que ele imaginava conhecer.

No fundo do casarão, depois do seguranças, ambos passaram por uma pesada porta de metal, que levava por um caminho baixo e mal iluminado que aparentava ter sido metade escavado na rocha, e metade escorado por paredes de pedra maciça.
-Quim, que diabos de lugar é esse em que você ta metendo a gente?
-Lembra da aula de história? Sobre aqueles túneis que tinham construído pra população poder escapar em caso de invasão, que todo mundo sempre diz que é lenda? Pois é. Bem-vindo a um dos segredos mais bem guardados da cidade. E já, já você vai estar no segundo deles.

Enquanto percorriam o corredor, um som abafado ia tomando conta de cada fresta das paredes gastas. Ao final, um novo portal era removido com um leve forçar das dobradiças, revelando um lugar completamente estranho, e um homem mascarado com um sorriso de porcelana que lhes dizia:

“Sejam bem-vindos, senhores, ao País das Maravilhas”

Domingo, 12 de Outubro de 2008

Foco - Capítulo 4


Se cada um tem o destino que merece, o que imaginar de nosso pequeno personagem? Temos diante de nós alguém fascinado por tempos que não viveu, músicas que não ouviu e pessoas que nunca conheceu. Aliás, ele nunca conhecera ninguém direito. Em sua mente, existiam apenas duas coisas: ele, e o que ele via a sua volta. Era de certa forma quase filosófico, a partir do momento em que se questionava se tudo que havia além de seu campo de visão realmente existia. Mas existe uma primeira vez pra tudo, e ele logo iria descobrir que existe muito mais no mundo do que supunha sua vã filosofia.


Um mundo fora da casca de noz, ou “quando o que você vê está mais perto do que parece”


Pela primeira vez em sua vida, ele tinha a companhia de alguém. Certo, tecnicamente não era “alguém”, mas sua relação com a antiga máquina fotográfica de seu avô era algo que ele, dentro de seu inexperiente conhecimento de causa, poderia até chamar de amizade. Afinal, ela estava sempre com ele e, o melhor de tudo, de certa forma ainda compartilhavam os prazeres da observação. Nada mal, para quem até pouco tempo não tinha nada além dele mesmo.



Mas a questão na qual entramos nesse momento não é exatamente a respeito de seu relacionamento com um objeto inanimado – mas sim a respeito do que aconteceu a ele por causa dessa que até poderia ser considerada uma amizade diferente, se não houvesse pelo mundo tanta gente que trata animais como grandes amigos. O grande problema da nossa situação é quem nem todo mundo compreende bem esses tais “relacionamentos alternativos”, e sempre tem aquele ser malévolo disposto a fazer com que todos saibam o quão ridículo ele considera tal situação.


HAHAHAHA, ou “olha que estranho o menino com a câmera na mão”


Como toda criança em tenra idade, havia a necessidade de que participasse de todo o ritual educacional que em teoria lhe proporcionaria fundações para todo o resto de sua vida. Pessoalmente, pouco lhe importava o tal “conteúdo” que lhe era forçosamente enfiado pelos ouvidos. Ele comparecia todos os dias àquele mesmo local, mas pelo prazer de ver gente. Claro, ele poderia muito bem ver gente pela televisão. Mas não era a mesma coisa. E também já havia percebido que “gente” acha muito estranho que alguém fique parado no meio da rua olhando pra elas. Então, como teoricamente ele “tinha” que estar ali, o melhor seria aproveitar. Pena que nem todos encaravam sua presença como algo positivo. Aliás, havia quem fizesse questão de demonstrar exatamente o contrário.


Era comum que recebesse encontrões ou empurrões pelos corredores. Ele não costumava responder, mas não por ser conivente com sua própria situação. A questão era que, mesmo que fizesse alguma coisa, de nada adiantaria. Só faria com que em vez de um ou dois, cerca de uma dúzia daqueles trogloditas de 15, 16 anos viesse atrás dele. Ele preferia então manter-se alheio a tais situações, mesmo que isso significasse ser tido como um “fracote” ou coisas do tipo. Ele não poderia ligar menos pra isso. Mas como já havia dito, sempre existe uma situação peculiar, um ponto de referência na vida das pessoas. Algo que significa que tudo a partir dali poderia ser classificado como “antes de” e “depois de”. E esse momento havia chegado.


“Vai lá, cara.” Ele ouvia a frase distante como um prenúncio do que iria acontecer. Afinal, ele passava por aquilo quase todos os dias.

-Anda! Qual é, ta com medo de irritar o cara? Ele nem se mexe mesmo... – dizia alguém.

-Não é isso. Só num to afim. Além disso, o cara nem fez nada. – completava outro.

-Rapaz, ele nasceu. É o suficiente. Vai lá e dá um sumiço naquela câmera dele, só pra bagunçar um pouco. Depois a gente devolve e diz que só queria dar uma olhada... – insistia o primeiro.

-Cara...

-Qual é, ta com medinho? Tá virando viado agora, ficando amiguinho do cara? Como é, vai ou não vai?

-Tá, to indo... Tá muito estressado você, ta ouvindo? Presta atenção você também...

As vozes riam da discussão, e incitavam um daqueles brutamontes a ir atrás do nosso pequeno personagem. Só que ele não era mais tão pequeno assim...

-E aí cara, beleza?

A voz era ignorada com um talento que só alguém muito experiente em fazer isso poderia ter.

-Como é, cê não ouviu não? Perguntei se ta tudo beleza.

Novamente, tudo que recebia era silêncio. Irritado, e já correndo o risco de parecer fraco em frente a seus “amigos”, ele não desiste.

-Porra meu, qual é? Tá surdo? – dizia, dando-lhe uma forte pancada nas costas – Anda, deixa eu dar uma olhada nessa câmera que você tem aí?

-Tira a mão. Que foi, ta gamando em mim? – respondia nosso jovem personagem às provocações.

As risadas geradas pela resposta eram agora ouvidas em alto e bom som.

-Rapaz, para de graça! Acabei de dizer pra você passar essa merda dessa câmera pra cá – dizia o outro, já tentando tirar o objeto das mãos dele.

-Já falei pra tirar a mão. Essa câmera era do meu avô, e é frágil. E vê se não enche. – respondia novamente, já puxando o equipamento para si.


Sabe, o maior problema dessa idade é que geralmente ninguém quer sair por baixo. Não se pode dizer nada fora de lugar, que o outro já interpreta como uma ofensa. Temos então um brutamontes pressionado pelos amigos a perturbar um jovem já cansado das tais “brincadeiras” daquele grupos de seres cujos cérebros aparentemente só conseguiam calcular o número de séries que deveriam repetir exaustivamente na academia, e mantê-los respirando. Na verdade não sei se chegaria a isso tudo. Alguns ali com toda certeza estavam perdendo a conta na academia...


A discussão se perpetuava, até que um deslize de ambos fez com que, em certo momento, tudo aparentasse um silêncio mórbido, permitindo somente que um leve som de vidro se estilhaçando fosse ouvido por todo o corredor.

-Caralho, se fudeu! – O grito quebrava o silêncio, junto com gargalhadas que pareciam não ter fim.

-É... É, se ferrou mesmo... – dizia o brutamontes, tentando esboçar um sorriso que nunca chegaria a ornamentar seu rosto.


A partir daí tudo acontecia muito rápido. É certo que, dentro de uma sociedade tida como “civilizada”, essa não seria a melhor atitude a se tomar. Mas quem enganou vocês dizendo que um corredor de uma escola é um lugar civilizado? Nosso jovem personagem havia chegado a seu ponto de ruptura, havia recebido a gota d’água, e não conseguiria agüentar aquela situação, mesmo que supostamente houvesse sido de algum modo um acidente. Ao mesmo tempo em que seu agressor se virava para encarar seus assim chamados “amigos”, um punho cerrado já cortava o ar em direção a seu maxilar. Essa cena em especial seria uma das mais fáceis de recordar durante todo o resto da vida de nosso personagem. Ele poderia, ao longo dos anos, relembrar o momento exato em que via os nós de seus dedos atingirem o rosto quadrado, levando consigo um par de dentes enquanto a face tomava a forma de seu punho. Ele não era muito bom naquilo, mas a raiva lhe permitia ainda desferir outro golpe em seu oponente antes que ele percebesse o que havia acontecido e começasse a revidar. Por sorte os dois logo foram separados, e ninguém teve maiores prejuízos do que alguns dias em casa em uns dois ou três hematomas.


Prosseguindo, então.


Acredito que não seja muito interessante pra nenhum de nós seguir detalhadamente o que aconteceu logo após o conflito, afinal, todos já passamos por isso um dia. Uma longa e tediosa conversa com a direção, repleta de “por que você fez isso?”, “você nunca entrou em brigas antes”, “seus pais vão ficar muito decepcionados com você”, e todo esse tipo de coisa. Enfim. Vamos pular cerca de meia hora, e encontrar nosso personagem sentado sobre uma das mesas do refeitório, aproveitando o tempo que lhe restava até que um de seus pais comparecesse à sala da direção e o levasse embora dali. O que acontece a seguir, isso sim, pode ser chamado de absolutamente inesperado.


-Ei, cara – dizia uma voz infelizmente conhecida.

-O que você quer aqui? Já não bastou aquela graça toda lá no corredor?

-Relaxa, cara. Vim te perguntar uma coisa.

-O que?

-Aceita um gelo aí? – dizia o jovem com a cara amassada – To com um pacote sobrando...

-Hmm... Valeu. Era só isso?

-Não. Na verdade queria me desculpar por aquilo tudo. É que sou novo aqui, e acho que meio que me deixei levar por aquele pessoal. E também pela tua câmera.

-Eu sei que você é novo. Entrou tem duas semanas, na primeira quarta-feira depois que voltamos de férias. Sentou na penúltima cadeira da fila da esquerda. Você só não sabia quem é que tava do teu lado...

-Caramba! Tu é fofoqueiro que só, hein?

-Sou só um pouco observador, na verdade.

-Mas então... a câmera foi pro brejo?

-Nem. O que quebrou foi só a lente de proteção, custa uns 30 paus, mas tem de monte lá em casa. Já até joguei fora.

-Que bom, cara.

Silêncio. Dois personagens aparentemente conflitantes, agora buscavam um entendimento mútuo. Um havia se encaixado no lugar errado, e o outro simplesmente não queria se encaixar.

-Qual teu nome? – dizia nosso personagem.

-Reginaldo.

-E eu que achava que era azarado. Tem outro nome não?

-Sempre tem, mas nenhum que vá fazer muito sentido. Inventa um apelido aí.

-Não sou bom de inventar as coisas. Segundo nome?

-Joaquim.

-Reginaldo Joaquim? Sua mãe não gostava de você não, é?

-Engraçadão você.

-Pois então vai ser Quim. Pelo menos é simples.

-É, nada mal. E você?

-Eu o que?

-Tem nome?

-Tenho.

-(...)

-Angelo. Pode me chamar de Angelo.


Os dois ficavam como que esperando o tempo passar. Era o final de um conflito, e o começo de um caminho completamente desconhecido.

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Para você...


Tinha sido mais um dia péssimo, ótimo pra terminar uma semana que já não vinha sendo muito boa. Uma daquelas sextas-feiras que parecem fazer pirraça pra você, parecendo não terminar nunca. Mas o final do dia finalmente chegava, e finalmente podia completar minha rotina, indo pra casa assistir alguma porcaria de filme B e dormir no sofá.

-E aí Al, qual a boa de hoje?
Diabo, logo na hora que eu já estava saindo...
-Rapaz, sinceramente meus planos são os mesmos de sempre: filme e sofá, e se eu me sentir muito animado, quem sabe peço uma pizza...
-Cara, sem querer ser chato, mas você me dá pena...
-Quem tem pena é galinha, Fernando. Agora se me dá licença, meu sofá me espera.
-Peraí, peraí! Não falei por mal, cara! Eu hein, relaxa... Olha, hoje vai ter um show especialíssimo num barzinho de jazz aqui perto, é aniversário da casa. Por que você não vai? Você tá precisando relaxar, vamos, vai ser bacana. Olha, vai pra casa, dá um jeito nessa cara amassada e me encontra por lá umas 10 horas. Aliás, considere isso parte do expediente, não esquece que sou teu chefe agora! Hahahaha! Até lá então, Alfredo!

Ótimo. Pra completar ainda tinha que ouvir graça de um cara que tinha ganhado função não tinha nem uma semana. Mas que se dane, o sofá e o filme não iam fugir juntos pra casar e criar galinhas num sítio num fim do mundo mesmo, então não teria problema ir dar uma olhada nesse bar.

(...)

Dez e quinze da noite e lá estava eu. Um baita segurança guardava a porta, apesar de não ter gente o suficiente ali pra causar qualquer tipo de confusão. Eu entrava no bar passando pelos óculos escuros do segurança careca com um rabo de cavalo enquanto pensava “Que figura, mal cheguei e já tem um desses logo na porta. Imagina o que não tem lá dentro”. Pois minha piadinha mental não poderia ter sido abafada mais cedo: o lugar estava repleto de gente “comum”, sem óculos escuros dentro dum lugar fechado ou roupas e penteados escandalosos. Vai ver só o segurança curtia o figurino...

-Al! Ei, Al! Aqui, cara! Puxa, ainda bem que você veio. Vai, puxa uma cadeira aí, vou pedir um chope pro garçom. Diz aí, que você ta achando? Não te disse que era espetacular? O show da guria está pra começar, aí sim isso aqui vai ficar bom!

O lugar até que era simpático: logo que se entrava, podia-se notar o balcão do bar que se estendia à esquerda até a parede, pra quem quisesse esperar alguém ou simplesmente afogar as mágoas sozinho; mais além, depois de descer uns dois ou três degraus, havia à direita um fileira de mesas transversais que ia até o fundo do salão, daquelas com divisórias entre uma e outra e um abajur com uma lâmpada meio queimada por cima, só pra dar um clima mais íntimo pra quem desejasse; no final do salão de tábua corrida havia, claro, o palco, um pouco elevado em relação ao resto do ambiente, o suficiente pra que todos pudessem ver a banda, mas não o bastante pra separar de vez os músicos e seu público; de resto havia um espaço em frente ao palco para aqueles que desejassem curtir a música dançando, e todo o espaço que sobrava era permeado de mesinhas de madeira. Nós estávamos numa das mesinhas mais distantes do palco, o que somado ao fato do lugar não ser muito grande nos dava uma boa visão geral do que acontecia por ali.

-Tá Fernando, uma coisa eu sou obrigado a admitir: o lugar é bem charmoso. Mas você não disse que era um show especial e coisa e tal? O lugar nem tá tão cheio assim.
-Rapaz, presta atenção: isso aqui não é axé nem micareta não. Só tá aqui quem curte muito o lugar. Então não vai lotar, mas pode ter certeza que daqui a pouco quem chegar já vai ter problema pra arranjar mesa.
-Se você tá dizendo... Mas então, esse...
-Esse o quê? Al? Al? EI, PANACA!
-Oi? Cara, quem tá precisando relaxar é você...
-Que relaxar o que, você que do nada ficou com uma cara de quem viu um fantasma ou algo assim...
-Olha, fantasma não foi, mas você tem que concordar comigo que tem um toque de sobrenatural nisso... Dá uma olhada ali.

Parecia coisa de cinema: a umas três ou quatro mesas da nossa, um belo par de olhos castanhos insistia em encontrar com os meus a todo momento, vindo sempre acompanhado de um singelo sorriso envergonhado de seus lábios rosados e de um enrolar nervoso das pontas do cabelo loiro escuro. Ela usava vermelho até a altura de seus joelhos, em um vestido que lhe revelava curvas suaves ao longo do corpo alvo que, se a excluíam de um modelo de beleza convencional, lhe proporcionavam toda a sensualidade e delicadeza de uma mulher que era linda exatamente por ser real. Seu rosto descansava apoiado em uma de suas mãos, enquanto a outra passeava pela mesa como que procurando algo que estava fora de alcance, dando-lhe um ar jovial que me conquistava a cada instante. Eu estava hipnotizado, e não havia percebido.

-Cara! Tem razão... Essa loirinha é show de bola, hein!
-“Show de bola”?!? Você tem o quê, treze anos?
-Oras, não importa. Afinal, você vai chegar nela ou não? Olha que se for pra você ficar aí com cara de paspalho a noite toda, quem vai lá sou eu!
-Bom, é que...
-É que o quê? Não sabe, desaprendeu?
-Por aí. Já tem um tempo que não saio assim, acho que perdi o jeito...
-Oras, mas quem é a criança agora? Vai lá, rapaz!
-É, mas... Oras! Ela sumiu!?
-Hiiiiiii, já era. A guria foi embora, e agora tu tá aí, chupando dedo!
-É, essa é a minha sort...
“AHAM”, dizia uma voz doce cortando a conversa.
-Desculpem interromper meninos, mas que saber se esse rapaz pretende realmente me chamar pra dançar ou vai só ficar me olhando a noite toda? Porque se for o caso posso te conseguir uma foto, que dura mais.
Pela primeira vez em muito tempo me faltavam palavras.
-Anda, vem. Vamos aproveitar que o show acabou de começar e tão tocando as melhores músicas.
Eu era puxado pelo braço até o centro da pista de dança, enquanto observava a cara embasbacada de Fernando como de quem não sabia se ria da minha situação ou se desejava que aquilo estivesse acontecendo com ele.
-Você sabe dançar, não sabe?
-Hã... Sei, sei sim.
-Pela sua cara, duvido. Que sorte a minha, um homem que não sabe dançar. Tudo bem, eu levo...

Eu estava completamente desorientado, pela primeira vez na vida me deixava levar por uma mulher que havia tomado as rédeas em suas mãos. Aliás, que mulher. Cada nota marcada pelo compasso da bateria era um movimento que me confundia, mas que seguia guiado pelas pernas que se entrelaçavam às minhas dando impressão de serem uma coisa só. Cada improvisação do trompetista ou do pianista significava um malabarismo a mais pra minha limitada capacidade motora.
-Nossa, você dança muito bem mesmo...
-Que nada, você que dança mal.
-!!!!
-Mas tudo bem, você pelo menos tem ritmo – dizia ela, segurando com firmeza minha cintura.
-Hã... brigado, eu acho.

O tempo passava imperceptivelmente, e tudo que conseguia notar era a variação de tons, notas, cores e formas que rodopiavam ao nosso redor durante todo o tempo que permanecíamos ali, juntos. Passo após passo, minha confiança no meu próprio corpo em meio àquele turbilhão de compassos aumentava, e à medida que isso acontecia, eu tomava mais e mais o controle de nosso destino na pista de dança, e conforme dividíamos cada decisão, imaginei que seria o momento ideal para mostrar-lhe que tinha outros talentos que não a dança quando a banda começou a tocar good morning heartache, de Billie Holliday. Doce engano. Cada tentativa minha era rebatida de tantas maneiras que jamais havia imaginado, desde um suave virar de rosto até um passo mirabolante que praticamente me jogou do outro lado do salão.
-Peraí, não to entendendo nada agora. Você me tira pra dançar, nós estamos aqui há um tempão já, e agora você fica assim?
-Você raciocina demais...
-Você é difícil assim mesmo, ou é só impressão minha?
-É difícil assim mesmo.
-Mas...
-Shhh... – dizia ela, baixinho, ao pé de meu ouvido – dança comigo...

Eu não podia acreditar no que estava acontecendo... Essa mulher linda tinha me tirado pra dançar, tinha me deixado sem chão, e agora isso? Ah, não. Estanquei no meio da pista de dança, e sinalizei para o baterista algo como “manda ver”, e disse:
-Você queria que eu dançasse com você, não é? Então agora dança comigo.
Puxei-a para perto de mim, e sob seu olhar desconfiado comecei a seguir o ritmo agitado imposto pela banda. Eu a levava da mesma maneira que ela havia feito comigo a noite toda, fazendo das minhas pernas as delas, entrelaçando-nos de modo que fossemos um só naquele momento. O trompete soava, enquanto nosso corpo suava, enquanto seguíamos passo, a passo, a passo, a passo o compasso imposto pela caixa e pelos pratos. A música se interrompia, e em meio aos aplausos à banda eu a via mordiscar sua boca rosada enquanto me olhava com satisfação.
-Hmmm... gostei... – dizia ela como que sussurrando, com os braços envoltos em meu pescoço.
Sequer tive chance de resposta, ao que fui surpreendido com o toque suave de seus lábios molhados nos meus. Não era um beijo, mas de certa forma era muito mais...
-Pra você – dizia, enquanto mostrava novamente seu sorriso quase infantil.
-Mas...
-Shhh – dizia, pressionando com seu indicador meus lábios.
-É presente.

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Violeta

Ele simplesmente não poderia deixar de olhar. Além disso, as divisórias feitas em vidro foram no mínimo essenciais ao permitir que seu olhar vagueasse pelo amplo salão até se deter naquela imagem particular. Há de se convir, também, que a sala onde ele mesmo se encontrava repudiava qualquer sentimento positivo, incitando divagações que levassem seus ocupantes para longe do recinto, mesmo que apenas em pensamento. Contrariando o padrão, a sala, talvez por estar exatamente na divisão entre a antiga e a nova ala do prédio, ainda mantinha três de suas quatros paredes em seus estados originais, com a aparência de estarem sem uma reforma há pelo menos uns quinze anos. Somado isso ao barulho incessante da rotação de um grande ventilador de parede, uma TV que transmitia mais ruído do que qualquer outra programação, uma secretária que se escondia por trás do móvel mofado falando no telefone em alto e bom som com sua voz esganiçada “só pra compensar o salário de merda”, uma planta morta e cadeiras extremamente desconfortáveis, era facilmente compreensível o apelido de “portal do inferno” que recebera dos funcionários mais antigos. Sendo assim, aquela única parede de vidro representava quase que um oásis para aqueles que se sentiam como prisioneiros naquela sala de espera.



Não era, então, surpresa alguma que ele logo notasse a figura daquela mulher na sala ao fundo do salão, bem em frente a ele. A distância entre os dois era apenas suficiente para impedir a constatação de pequenos detalhes, mas era também próximo o bastante de modo a permitir um extraordinário exercício de imaginação. Toda vez que precisava ir até ali, sentava-se sempre na cadeira mais próxima da janela de vidro, mais pelo fato de querer distância da planta meio morta no outro extremo da parede, que parecia sugar-lhe toda a esperança da alma, do que por realmente querer aproveitar a vista do amplo salão. Especialmente porque a única diferença com a parte antiga do prédio é que ali toda a rotina massacrante do tedioso trabalho de escritório podia ser vista a olho nu, como que numa grande jaula de circo. O que tornava essa ocasião uma exceção é que pôde notar algo que parecia se destacar no meio daquele mar de ternos e tailleurs cor de cinza chumbo e negro. Ele nunca fora muito bom com matizes. Na sua opinião, não existia “azul escuro”, “azul marinho' ou “azul celesta”, era tudo apenas puro e simples “azul”. Desta vez fora diferente, no entanto.



Dentre tantas cores facilmente confundíveis, logo ele soube identificar claramente que a echarpe translúcida que se enrolava no alvo e bem delineado pescoço e terminava por descer por cima do seio esquerdo até um pouco abaixo da cintura não era “roxo”, “uva”, “lilás” ou outra das infinitas variações possíveis, com a exceção de uma. Definitivamente, pensava ele consigo mesmo, a cor era violeta. É certo que a mulher não fugia ao padrão monocromático que predominava, mas aquela grande tira de tecido colorido tinha uma certo ar de rebeldia, algo que lembrava uma espécie de liberdade pessoal absurdamente incomum para todas aquelas cópias que batiam cabeça pelo salão. Era como se a flor que nomeia a cor houvesse brotado bem em meio aos restos de um imensa queimada. Aquele ponto radiante mais parecia um pequeno grito de revolta do que um simples acessório.



Apesar do ruidoso movimento do ponteiro que marcava os segundos no grande relógio de parede por sobre o móvel, ele já começava a perder a noção do tempo que já passara ali, esperando sem saber porquê. O silêncio esmagador que surgira após o fim da ligação da secretária era apenas rompido pela combinação quase hipnotizante do passar do tempo com o tamborilar mecânico de um lápis na mesa. Somado a isso, ainda se distraía com os movimentos suaves do tecido, que parecia ter vida própria, flutuando ao redor do corpo como que medindo cada aresta e curva, na esperança de revelar o que a roupa bem comportada escondia. Em seu transe tudo o que via era aquela imagem, a mulher que deveria ser do tamanho exato para que conseguisse aconchegar seu rosto em seu peito, mesmo não sendo ele mesmo um homem alto, escorada em uma mesa baixa que lhe pegava na altura exata dos quadris, fazendo com que repetidamente levasse uma das mãos à saia que cismava em tentar revelar algo além dos joelhos das duas pernas grossas entrelaçadas. As mãos também apoiadas na mesa e o blazer esquecido desabotoado mostravam uma blusa cinza-chumbo perfeitamente aderida ao desenho da silhueta, revelando os nuances de uma cintura que era apenas suficientemente cheinha para não ser considerada uma modelo, e de seios pequenos mas não inexistentes, que cabiam perfeitamente na palma das mãos e davam a ela o exato tom de uma mulher de verdade. Quando ela se levantava, antes que voltasse ao seu lugar ele era capaz de perceber a linha curva que ia da base de seus calcanhares, passando pelos tornozelos e coxas bem definidos, subindo pelo quadril esculpido e continuando pela cintura até chegar ao pescoço surpreendentemente fino e delineado, escondido em parte pela mancha violeta e que culminava no cabelos cacheados em um coque desleixado com inúmeros fios soltos e embaralhados por sobre a pele alva.



Ele via-se agora atravessando a passos largos porém calmos todo o salão, abrindo a porta de vidro com o coração na boca e encarando-a como se pudesse olhar para seus olhos e enxergar o desejo no fundo de sua alma. Era agora final de expediente, e qualquer um que ainda estivesse na mesma sala que os dois haveria de perceber o que acorria e sairia discretamente, deixando os dois a sós para atender a suas ânsias. Ele tomava-a entre suas mãos largas, e deslizava-as por todo aquele corpo que para ele era simplesmente delicioso, a despeito de não estar de acordo com quaisquer padrões de beleza. Virava-a de costas e tomava-lhe a echarpe para fazer dela uma extensão e ligação entre o corpo dos dois, com o fino toque do tecido passando por todo o corpo, até tapar-lhe os olhos ao mesmo tempo que lhe prendia as mãos. O toque de seus lábios grossos e úmidos em seu pescoço a fazia vibrar, com arrepios correndo da base da espinha até a nuca. Persianas fechadas e luzes desligadas até o hall de elevadores tornavam aquele momento só deles. Sorte os botões terem sido esquecidos, pois tal era sua voracidade que ele os teria arrancado sem o menor pudor. Sua blusa e sutiã era simplesmente fatiados com um abridor de cartas encontrado sobre a mesa, enquanto o barulho do fecho de metal do cinto de sua calça ressoava ao encontrar o chão. O barulho de um telefone ao fundo não era o suficiente pra tirar sua atenção, enquanto lhe subia a saia e consumava o ato com duas fortes pernas entrelaçadas em seu tronco.


-Téo. TÉO!!


O senso de realidade lhe caía como uma bomba.


-Téo, seu surdo! Presta atenção! Seu Pereira ligou, ele não vai conseguir vir porque ele teve uma emergência. Outra história pra boi dormir. Bom, ele pediu pra você voltar amanhã, tá? Ele disse que depois te diz sobre o que ele quer falar com você.


-Hã... Certo, certo. Tudo bem...


Ele se levantava como quem acaba se acordar de um sonho, ainda com o zumbido baixo da TV no pé de seu ouvido. Rapidamente olhou para a sala exatamente à sua frente, mas agora tudo o que restava era uma sala vazia, a memória de um sonho, e um pedaço de tecido cor de violeta que fora esquecido em cima de uma mesa baixa.

***