sexta-feira, 2 de maio de 2008

Violeta

Ele simplesmente não poderia deixar de olhar. Além disso, as divisórias feitas em vidro foram no mínimo essenciais ao permitir que seu olhar vagueasse pelo amplo salão até se deter naquela imagem particular. Há de se convir, também, que a sala onde ele mesmo se encontrava repudiava qualquer sentimento positivo, incitando divagações que levassem seus ocupantes para longe do recinto, mesmo que apenas em pensamento. Contrariando o padrão, a sala, talvez por estar exatamente na divisão entre a antiga e a nova ala do prédio, ainda mantinha três de suas quatros paredes em seus estados originais, com a aparência de estarem sem uma reforma há pelo menos uns quinze anos. Somado isso ao barulho incessante da rotação de um grande ventilador de parede, uma TV que transmitia mais ruído do que qualquer outra programação, uma secretária que se escondia por trás do móvel mofado falando no telefone em alto e bom som com sua voz esganiçada “só pra compensar o salário de merda”, uma planta morta e cadeiras extremamente desconfortáveis, era facilmente compreensível o apelido de “portal do inferno” que recebera dos funcionários mais antigos. Sendo assim, aquela única parede de vidro representava quase que um oásis para aqueles que se sentiam como prisioneiros naquela sala de espera.



Não era, então, surpresa alguma que ele logo notasse a figura daquela mulher na sala ao fundo do salão, bem em frente a ele. A distância entre os dois era apenas suficiente para impedir a constatação de pequenos detalhes, mas era também próximo o bastante de modo a permitir um extraordinário exercício de imaginação. Toda vez que precisava ir até ali, sentava-se sempre na cadeira mais próxima da janela de vidro, mais pelo fato de querer distância da planta meio morta no outro extremo da parede, que parecia sugar-lhe toda a esperança da alma, do que por realmente querer aproveitar a vista do amplo salão. Especialmente porque a única diferença com a parte antiga do prédio é que ali toda a rotina massacrante do tedioso trabalho de escritório podia ser vista a olho nu, como que numa grande jaula de circo. O que tornava essa ocasião uma exceção é que pôde notar algo que parecia se destacar no meio daquele mar de ternos e tailleurs cor de cinza chumbo e negro. Ele nunca fora muito bom com matizes. Na sua opinião, não existia “azul escuro”, “azul marinho' ou “azul celesta”, era tudo apenas puro e simples “azul”. Desta vez fora diferente, no entanto.



Dentre tantas cores facilmente confundíveis, logo ele soube identificar claramente que a echarpe translúcida que se enrolava no alvo e bem delineado pescoço e terminava por descer por cima do seio esquerdo até um pouco abaixo da cintura não era “roxo”, “uva”, “lilás” ou outra das infinitas variações possíveis, com a exceção de uma. Definitivamente, pensava ele consigo mesmo, a cor era violeta. É certo que a mulher não fugia ao padrão monocromático que predominava, mas aquela grande tira de tecido colorido tinha uma certo ar de rebeldia, algo que lembrava uma espécie de liberdade pessoal absurdamente incomum para todas aquelas cópias que batiam cabeça pelo salão. Era como se a flor que nomeia a cor houvesse brotado bem em meio aos restos de um imensa queimada. Aquele ponto radiante mais parecia um pequeno grito de revolta do que um simples acessório.



Apesar do ruidoso movimento do ponteiro que marcava os segundos no grande relógio de parede por sobre o móvel, ele já começava a perder a noção do tempo que já passara ali, esperando sem saber porquê. O silêncio esmagador que surgira após o fim da ligação da secretária era apenas rompido pela combinação quase hipnotizante do passar do tempo com o tamborilar mecânico de um lápis na mesa. Somado a isso, ainda se distraía com os movimentos suaves do tecido, que parecia ter vida própria, flutuando ao redor do corpo como que medindo cada aresta e curva, na esperança de revelar o que a roupa bem comportada escondia. Em seu transe tudo o que via era aquela imagem, a mulher que deveria ser do tamanho exato para que conseguisse aconchegar seu rosto em seu peito, mesmo não sendo ele mesmo um homem alto, escorada em uma mesa baixa que lhe pegava na altura exata dos quadris, fazendo com que repetidamente levasse uma das mãos à saia que cismava em tentar revelar algo além dos joelhos das duas pernas grossas entrelaçadas. As mãos também apoiadas na mesa e o blazer esquecido desabotoado mostravam uma blusa cinza-chumbo perfeitamente aderida ao desenho da silhueta, revelando os nuances de uma cintura que era apenas suficientemente cheinha para não ser considerada uma modelo, e de seios pequenos mas não inexistentes, que cabiam perfeitamente na palma das mãos e davam a ela o exato tom de uma mulher de verdade. Quando ela se levantava, antes que voltasse ao seu lugar ele era capaz de perceber a linha curva que ia da base de seus calcanhares, passando pelos tornozelos e coxas bem definidos, subindo pelo quadril esculpido e continuando pela cintura até chegar ao pescoço surpreendentemente fino e delineado, escondido em parte pela mancha violeta e que culminava no cabelos cacheados em um coque desleixado com inúmeros fios soltos e embaralhados por sobre a pele alva.



Ele via-se agora atravessando a passos largos porém calmos todo o salão, abrindo a porta de vidro com o coração na boca e encarando-a como se pudesse olhar para seus olhos e enxergar o desejo no fundo de sua alma. Era agora final de expediente, e qualquer um que ainda estivesse na mesma sala que os dois haveria de perceber o que acorria e sairia discretamente, deixando os dois a sós para atender a suas ânsias. Ele tomava-a entre suas mãos largas, e deslizava-as por todo aquele corpo que para ele era simplesmente delicioso, a despeito de não estar de acordo com quaisquer padrões de beleza. Virava-a de costas e tomava-lhe a echarpe para fazer dela uma extensão e ligação entre o corpo dos dois, com o fino toque do tecido passando por todo o corpo, até tapar-lhe os olhos ao mesmo tempo que lhe prendia as mãos. O toque de seus lábios grossos e úmidos em seu pescoço a fazia vibrar, com arrepios correndo da base da espinha até a nuca. Persianas fechadas e luzes desligadas até o hall de elevadores tornavam aquele momento só deles. Sorte os botões terem sido esquecidos, pois tal era sua voracidade que ele os teria arrancado sem o menor pudor. Sua blusa e sutiã era simplesmente fatiados com um abridor de cartas encontrado sobre a mesa, enquanto o barulho do fecho de metal do cinto de sua calça ressoava ao encontrar o chão. O barulho de um telefone ao fundo não era o suficiente pra tirar sua atenção, enquanto lhe subia a saia e consumava o ato com duas fortes pernas entrelaçadas em seu tronco.


-Téo. TÉO!!


O senso de realidade lhe caía como uma bomba.


-Téo, seu surdo! Presta atenção! Seu Pereira ligou, ele não vai conseguir vir porque ele teve uma emergência. Outra história pra boi dormir. Bom, ele pediu pra você voltar amanhã, tá? Ele disse que depois te diz sobre o que ele quer falar com você.


-Hã... Certo, certo. Tudo bem...


Ele se levantava como quem acaba se acordar de um sonho, ainda com o zumbido baixo da TV no pé de seu ouvido. Rapidamente olhou para a sala exatamente à sua frente, mas agora tudo o que restava era uma sala vazia, a memória de um sonho, e um pedaço de tecido cor de violeta que fora esquecido em cima de uma mesa baixa.

***

Nova Casa Nova

Bom, as mudanças no blog não deixam de ser gritantes. Não só trocamos o domínio (era zip.net, e agora estamos no blogspot.com), como também o layout, que na verdade foi um dos principais motivos para a mudança. O Uol Blog é unanimamente considerado o mais difícil para edição, e mesmo eu tendo sido teimoso e conseguido criar algo até que razoavelmente bonito aos olhos de quem via (era uma cereja azul, tinha mesmo como ficar feio?), era algo realmente estafante, apesar de divertido. Então em resumo é isso, a interface do blogger é mais fácil, prática, e no final todo mundo fica feliz. ah, sim, a mudança no nome foi necessária porque uma empresa que fabrica bonecos de pelúcia (em PORTUGAL) também possui um endereço no blogger, adivinha só, com o nome de azulcereja. Vai entender... Mas, sem maiores problemas, todos que acessam o antigo blog são automaticamente redirecionados para este, então todo mundo fica feliz! Até mais!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Foco - Capítulo 3

Sua vida até esse momento havia lhe trazido fatos sobre ele mesmo de certa maneira bastante interessantes, isso é fato. Mas talvez ter duas mortes como principais lembranças depois de pouco mais de uma década e meia de existência não fosse exatamente algo a ser muito celebrado. Ainda mais quando uma delas significou a despedida de uma das pessoas mais importantes na formação de quem ele era agora. De certa forma, no entanto, servia de consolo saber que muito ainda o esperava ao longo de seu caminho.


Uma briga, dois nomes, e um meio sorriso


É fato que omiti um evento muito importante para o desenvolvimento de nossa narrativa. Mais precisamente aquele que falava sobre um certo ganho. Pois bem. Creio que nos entretemos demais nos momentos finais entre ele e seu avô, mas vamos então voltar ao ponto que buscávamos. O ganho foi, de certa maneira, uma surpresa. Poucos dias depois de sua visita ao cemitério, houve a descoberta de um objeto estranhamente familiar.


Uma breve descrição:


Quando não estava entretido com o mundo à sua volta, buscava refúgio dentro do mundo que ele mesmo havia criado. Não é possível dizer que, nesse aspecto particular, fosse muito diferente que qualquer outro adolescente comum. Para ele, seu quarto não era apenas o lugar onde se passava algumas horas em sono pesado, mas significava também o lugar onde se encontrava tudo aquilo que necessitava para viver em paz consigo mesmo. O cômodo retangular possuía grandes janelas em toda a extensão de um dos lados maiores, exatamente à direita de quem entrava, como se o próprio aposento houvesse adquirido a personalidade observadora de seu residente. A grande estante repleta de livros e revistas empilhados uns sobre os outros, embutida no pequeno espaço logo ao lado da porta criava uma espécia de túnel, que separava o mundo exterior dos mistérios guardados dentro de suas paredes. O imenso armário que servia de plano de fundo a quem olhasse a partir do lado de fora escondia gavetas e mais gavetas, todas repletas de pequenas lembranças, desde pequenos objetos até desenhos que traziam a lembrança de momentos únicos, repletos de sentimentos e imagens. Logo seriam instaladas mais gavetas, e o motivo é bem simples: em cima da cama de solteiro que ficava exatamente entre a porta e o armário, e diretamente voltada para a janela, havia uma câmera fotográfica, calmamente aninhada na colcha feita de retalhos coloridos em forma de losangos, como que esperando por alguém em especial. E esse alguém em especial logo a reconheceu, primeiro como uma estranha naquele ambiente tão bem conhecido, depois como uma velha amiga de lembranças antigas.


-Hã... o que é isso?, dirigindo-se à sua mãe, que naquele momento estava em sua cama encarando um antigo porta-retratos, ainda com seu rosto mostrando as marcas de dias de lamento por seu pai falecido.

-É a câmera do seu avô. No testamento dele estava que você devia ficar com ela, então trouxe hoje de manhã quando estava arrumando algumas coisas na casa dele. Ela ficava lá em cima da estante da sala, perto daquele toca-discos antigo, não lembra? Falando nisso, trouxe ele também. Você sempre gostou dessas coisas antigas....


É claro, ele se lembrava. Não tinha como esquecer. Aquela mesma câmera que agora se escondia em suas mãos já fora muitas vezes o assunto principal das conversas dos dois. Segundo seu avô, aquela antiga peça de maquinaria, que por certo já deveria estar em um museu, havia registrado praticamente todos os momentos importantes da vida daquela família de três pessoas. E agora aquele pequeno pedaço de plástico e metal era todo seu, como um antigo membro da família que acabava de conhecer o mais novo rebento.

* * *


Sua reação foi prática. De certa maneira, ele agora sabia que seu avô havia encontrado uma maneira de se manter presente mesmo após ter partido. E após ter entendido isso, foi logo em busca de mais algumas memórias.


Uma casa, e sua identidade


A casa de seu avô conseguia refletir exatamente o perfil de seu antigo ocupante. Em cada detalhe do pequeno quarto-e-sala que o ancião ocupara era possível encontrar algo que parecia gritar seu nome. Mesmo apesar de ter vivido ali apenas após a morte de sua esposa, a atmosfera que a casa conservava parecia secular. Desde a entrada, onde se via na sala os móveis feitos na madeira seguindo quase um estilo rococó, com cada parte da peça trabalhada com o único propósito de exibir uma exuberância única. O carpete com manchas de vinho, cigarro e café revelavam um homem entregue à vícios mundanos. As cortinas drapeadas que encobriam completamente as janelas fechadas durante anos criaram um certo ar estagnado, com seu silêncio quebrado apenas pelo barulho grave e estridente dos Long Plays de Jazz e Bossa Nova ouvidos através de duas caixas de som praticamente estouradas. Estes, e as pilhas de livros antigos espalhadas por cada canto do cômodo eram praticamente toda a companhia da qual compartilhava o velho, com exceção das frequentes visitas do neto. Fora ali que ouvira de seu avô todas as histórias a respeito de sua própria história, e de certa maneira o lugar representava o início de um novo capítulo. Além deste, apenas outro cômodo na casa vale um comentário. Isso porque é lá que nosso personagem conhece mais sobre seu avô, e sobre si mesmo. O quarto de empregada, por não ser utilizado como prega seu nome, fora transformado em uma verdadeira arca, onde tudo ali contido possuía imenso valor para seu dono. Ao neto, no entanto, fora negado qualquer acesso àquele baú do tesouro, até aquele momento. Não que houvesse algo a esconder, mas o homem que utilizava gravatas roxas com pequenos desenhos de animais tinha lá suas manias. Agora, todos os segredos ali guardados estavam a um passo da revelação.

O toque frio da chave, e o som metálico que esta produzia quando encontrava a borda do chaveiro durante as rápidas rotações executadas ao redor de seu indicador apenas davam ao momento o leve toque de suspense que o tornavam memoravelmente especial. A grande chave de latão dourado deslizava em direção à fechadura, enquanto em sua mente se dispersava tentando imaginar o que existiria por trás daquela porta que parecia levar a uma dimensão completamente diferente. Sua respiração travou, da mesma maneira que o fez a antiga chave na fechadura gasta ao tentar abri-la, mas um leve esforço possibilitou que a chave finalmente raspasse o metal ao girar duas vezes sobre si mesma, liberando a porta que abriu levemente como se estivesse tímida ao mostrar o conteúdo da sala a alguém estranho.


E sim, era realmente algo de outro mundo. Pelo menos para ele. O quarto era pouco mais largo que um corredor, e cada centímetro de suas paredes estava coberto com centenas de imagens, que iam do rodapé até o teto. Todas aquelas figuras, muitas vezes sobrepostas umas às outras, levavam quem quer que estivesse dentro daquela redoma figurativa à uma viagem através de memórias de dezenas de pessoas diferentes e absolutamente desconhecidas, mas que de alguma forma faziam total sentido ao lado umas das outras. Preto e branco se misturavam com cores vibrantes e fotografias em cromo em tons de sépia, criando uma fusão de matizes somente comparável com um arco-íris caleidoscopicamente embaraçado. Grandes arquivos espalhados pela sala de modo que não tocassem nas paredes guardavam dezenas de outras imagens, assim como negativos, testes de contato, filtros e lentes. Em uma das paredes menores se escondia por baixo de caixas e de um ampliador uma pia com pinças e bacias de produtos químicos, que por sua vez davam ao ambiente um odor levemente ocre. Para chegar de um lugar ao outro, era ainda necessário escalar alguns montes de revistas, livros e LP's antigos. A capa de um disco de Ella Fitzgerald se encontrava abandonada e desfeita de seu conteúdo a um canto, enquanto no outro Elis Regina e Whitesnake faziam um par estranhamente mais diferente e atual do que esperado para o gosto de alguém que já havia visto e ouvido de tudo. Não se podia negar que o velho gostava de novidades. O único objeto intacto, livre de poeira e absurdamente deslocado em meio aquilo tudo, exatamente por ser a única coisa realmente arrumada em um local definido, era uma pequena burra, um baú de madeira forrado com couro. Dentro dela ele encontrou muito mais do que imagens e sons, pois ali estavam simplesmente todo objeto que trazia consigo o sentimento e a memória de cada momento importante da vida do homem. Fotos de uma esposa falecida, cartas repletas de declarações de amor, documentos de uma vida que já não existia mais. O saque estava completo. Dezenas de discos, lentes, flashes e filmes para a câmera, alguns livros e a burra. Ao voltar pra casa, o que levava consigo era mais do que simples objetos. Eram pequenas partes da vida de uma pessoa, que haviam se revelado na verdade muito mais parte de sua própria do que ele imaginava. Passou dias analisando cada pequena parte de seu saque, cantando junto com cada um dos discos de pessoas que ele sequer havia ouvido falar e experimentando como era o mundo através do visor de sua nova câmera.


* * *

Foco - Capítulo 2

Uma pessoa incomum. Um evento inesperado. Uma imagem. A primeira de muitas, com certeza.


Não existe jeito certo para lidar com esse tipo de acontecimento. Como explicar para uma criança o complexo jogo de emoções que leva uma pessoa a tirar a própria vida? Simplesmente não se explica. Diz-se “não foi nada, não se preocupe”, e tenta fazer com que ela não fique traumatizada a ponto de precisar de ajuda médica em algum momento. Talvez essa fosse a maneira certa, talvez não. Isso não importa muito. Ele mesmo não se lembrava da reação dos familiares em relação a isso. Na verdade, demorou alguns anos até que realmente se desse ao trabalho de tentar entender o que ocorrera naquela manhã longínqua. E mesmo depois que compreendeu a imensidão da situação, tudo o que fez foi guardar pra si o seu próprio sentimento em relação ao que vira. Só o que queria para si eram aqueles olhos. De certo modo um encontro absolutamente metalingüístico, onde o observador se revela observado por seu próprio objeto de interesse, numa variação cíclica, onde cada brilho existente nas pupilas de cada um reflete infinitamente entre os dois, como que em um jogo de espelhos.


Um jogo particularmente divertido, e um pequeno avanço dos eventos


Chegamos a um ponto importante em nossa pequena viagem por estas memórias. É preciso frisar que, após esse marco inicial, seu confronto com eventos de maior importância foi substancialmente reduzido ao longo de alguns anos. Mas isso não o impediu de desenvolver seu pequeno talento cada vez mais. Quanto mais avançava sua capacidade de entender o que acontecia à sua volta, mais era capaz de perceber as matizes existentes no universo que ligava cada fractal de um momento específico com seus personagens. Cada imagem que guardava em sua mente trazia um arquivo não só de detalhes visuais, mas uma completa configuração de sentimentos, sensoriais, emocionais e racionais que explicavam a existência da situação guardada. O fato é que esses registros se tornaram sua principal atividade ao longo dos anos, preenchendo cada vez mais o espaço vazio deixado por outras partes de sua vida. Não se envolvia em esportes, ia a festas com conhecidos e tampouco se integrava facilmente com outras pessoas. Era de certa forma deslocado, até mesmo por realmente não se importar em fazer esse tipo de coisa. Tinha algo muito mais importante a fazer, e, com certeza, muito mais divertido. O problema é que raramente a vida segue o plano que nós mesmos criamos.


Uma perda, um ganho e a cor de um sentimento


As surpresas simplesmente se acumulam ao longo da vida de uma pessoa. Como poderia ser diferente com ele? Foi necessário apenas o momento exato para que um mundo desabasse, e outro absolutamente novo surgisse no lugar como que por mágica.


O que causou a mudança? A perda.


Mais de uma década depois, o inevitável novamente bate a sua porta. Dessa vez, no entanto, não só não era esperado, como também não era bem-vindo. Não era apenas um ente querido. Era o mais querido de todos. Não possuía irmãos ou primos com quem compartilhasse seus momentos. Seus pais eram, para dizer o mínimo, ausentes. E agora, aquele que estava sempre presente quando necessário, que sempre tinha a resposta de tudo e que compreendia todos os pensamentos nunca mais estaria acessível. A morte de seu avô tirava um pouco da cor do mundo.


Uma despedida, e a cor mais triste do mundo


O dia ensolarado revelava cada minucioso detalhe da situação, e as cores vibrantes presentes no gramado e nas árvores que floresciam contrastavam de maneira absurda com a onda de tecido negro que se aglomerava ao redor da grande caixa de madeira. Há quem diga que dias claros como aquele indicam que a pessoa foi em paz. Ele preferia acreditar nisso, apesar de não enxergar tão perfeitamente as cores pulsantes daquele dia em especial. Para ele, tudo adquirira uma palidez indescritível, como se aquele longínquo lápis branco houvesse ressurgido para agourá-lo. A primeira imagem que guardou consigo foi a visão que teve de longe, onde pôde captar um pouco de tudo que havia ali. Cada nuance de cor, cada sombra desenhada por cada detalhe das árvores e das lápides. Cada ínfima característica da situação foi se desenhando em sua mente, com a única diferença residindo nas pesadas cores que iam em desacordo com a realidade. Tons de verde no rosto de cada pessoa, violetas que permeavam as sombras deixadas por cada ser daquela cena, um marrom escuro que tornava aquela mistura algo detestável, como que algo levemente pútrido. Em sua mente, tal união de cores criara algo único e novo. Mas nem toda novidade é boa, e aquela com certeza não era. Diante de seus olhos todo aquele cenário fundia-se em uma única cor, indescritível, mas ainda assim permeada de profundos sentimentos. E no fundo de sua consciência, ele sabia que aquilo era algo realmente horrível de se ver.


Olhos nos olhos, e uma conversa silenciosa


Como que em um deboche, chegara sua vez de dizer adeus pela última vez. Não havia ansiedade em seus olhos. Nem mesmo o prazer que residia em sua relação antropofagicamente abusada com tudo que digeria através de seus olhos aparecia através das pupilas vidradas. A expectativa era a de que tudo aquilo passasse logo, e se tornasse mais uma no álbum de lembranças. Mas o tempo é hábil em brincar conosco. E para ele, a visita ao caixão aberto do avô pareceu durar uma eternidade.

A figura estirada no forro de cetim marfim pouco mantinha da pessoa que fora um dia. A grande barba manchada que cobria a maior parte do pescoço até as orelhas preponderantes e os pêlos do nariz parecia ter encolhido, como se esta possuísse uma vida própria, que lhe havia abandonado juntamente com a do velho. Os lábios finos dos quais antes emergiam grandes gargalhadas encontravam-se cerrados e escondidos entre os pêlos, sem dar a impressão de que dali sairia uma palavra amável e acolhedora, como tantas vezes fizera. O longo cabelo alvo escorria pelos ombros largos, a despeito da falta que fazia no escalpo ancião. As marcas e manchas cultivadas pelos anos praticamente sumiam entre as rugas da face. Para quem o conhecia, era muito simples reconhecer e assinalar uma infinidade de pequenos detalhes na superfície rugosa, cada qual relacionado a uma certa expressão dentre todas as que eram figurinhas certas e fáceis de surgir no rosto desgastado. O sorriso fácil, que repuxava os cantos da boca e resultava numa ampla gargalhada. O olhar severo e bondoso que consumia as pálpebras e todas as partes ao redor dos pequenos olhos, chegando a mover o grande nariz para uma posição que tornava toda aquela expressão zangada mais um motivo para sorrir do que para se entristecer. As grandes sobrancelhas em forma de lagartas, que adquiriam praticamente qualquer formato que se pudesse imaginar, e até alguns que não se podia.

Tudo ali revelava um pouco do homem que outrora possuíra aquele corpo. O terno de bom corte, condizente com seu bom gosto, e sua exigência pelo melhor que sua simplicidade pudesse oferecer. O grande círculo amarelo em volta de seu anelar mostrava sua dedicação sem limites à esposa que o deixara muitos anos antes, e a mancha negra exatamente abaixo do mesmo revelava a resistência do amor de um homem em tempos de dificuldades. A mancha era resíduo de um tempo em que existiam apenas duas opções: ou se sustentava um filho, ou se apegava ao último resquício de luxo da vida. O anel de hoje era uma réplica, adquirida muitos anos depois, para cobrir a tatuagem que eternizou o laço entre duas pessoas. As mãos entrelaçadas por cima do tórax farto mostravam uma posição recorrente, onde os dedões gorduchos faziam um sinal positivo, como que dizendo “não se preocupem, estou bem!”. O lenço em seu bolso fazia par com uma gravata borboleta roxa com pequenos desenhos de um patinho de borracha. Pomposo, fino e escrachado, ele era na morte como foi em vida. Ele havia partido, mas nada havia mudado. Um longo dia terminava, e era hora de ir para casa.


...



A little bit of this, a little bit of Jazz

Certo, certo. talvez eu realmente esteja entrando numa fase maio jazzística e blueseira, mas venhamos e convenhamos: são dois estilos clássicos, que são perfeitos para aqueles momentos onde se prefere saborear uma boa música. então agora trago a você, meio leitor que passa aqui a cada 417 anos, dois vídeos. O primeiro, de Louis Armstrong, com a já conhecidíssima "What a wonderfull world", e a segunda uma paceria entre o mesmo e Ella fitzgerald, em "Summertime". Espero que gostem!

P.S.: Falando em gostar, queria agradecer ao meio leitor que passou por aqui nesse dia, e se deu ao trabalho de ler o que escrevi. Eu sou uma daquelas pessoas que nãopossuem a menor confiança naquilo que escrevem, ao menos em um contexto basicamente ficcional e poético. Sendo assim, a opinião de todos é muito importante. That's All, Folks!

Louis Armstrong - What a wonderfull world



Ella Fitzgerald & Luois Armstrong - Summertime

Foco - Capítulo 1

A palavra talvez não seja “privilegiada”. Talvez o termo correto seja “diferente”, ou simplesmente “característica”. Sim, talvez “característica” seja a melhor maneira de descrever. Ele sempre possuiu uma visão de mundo realmente característica. Desde o primeiro momento do qual consegue recordar, sempre teve em si um espírito observador. Sempre reparava em cada detalhe à sua volta, e era capaz de guardá-los em sua mente como verdadeiras pinturas. Desde as mais classicistas, com todos perfeitamente eternizados em suas posições, até os modernistas ou expressionistas, onde tudo estava em qualquer lugar menos em seu devido lugar. Uma pena ele não ter o menor talento para pintura.

Ser alguém com uma percepção do mundo ao seu redor extremamente aguçada poderia ser algo a ser celebrado. Poderia. Isso não inclui aquelas pessoas que exatamente por causa desse sentido elaborado simplesmente escolhem ser meros expectadores diante do passar do tempo. E ele escolheu ser uma dessas pessoas. Seu nome? Talvez voltemos a isso adiante, mas não é importante. Tampouco sua figura, ou o modo como se vestia, a maneira como andava, o jeito de se comportar. Ele não era ninguém. Ninguém cuja presença devesse ser notada. Ele escolheu ser uma sombra, sempre escondida sob a égide da indiferença humana. Mas ele não era alguém digno de pena, longe disso. Esta foi sua escolha, e esta é sua história.


...


Um exercício, pra começar:


Imagine uma criança que ao contrário de todas as outras não se importa de não ser escolhido pra brincadeira. Imagine uma criança que na verdade tem por diversão o fato de observar cada detalhe, cada nuance das brincadeiras de todas as outras crianças. É algo difícil de imaginar possível, suponho. Mas pense agora na coisa que te dá mais prazer. O sentido de tudo é exatamente esse. O prazer move o mundo. Porque não moveria uma simples criança?


O Azul, o Amarelo, o Vermelho e o bicho-da-seda


Luz. O começo de tudo, não é? Bom, talvez não de tudo. Mas com certeza é o começo desta história.


Uma informação, pra continuar:


O olho humano é capaz de perceber milhões de cores. No entanto, apenas 3 delas podem ser consideradas fundamentais. São cores que teoricamente não podem ser decompostas, e que na verdade são matéria-prima para todas as outras. São o azul, o amarelo, e o vermelho.


Agora, a grande pergunta: por que o comentário? Tudo tem seu tempo. Logo você entenderá.


Nossa história se mescla com lembranças, e é a primeira delas que visitamos agora.


Três ou quatro anos. Ele não se lembra bem da data. Mas a data não é o importante aqui. O local também não. O importante é o que ele viu.


Um parque para crianças. Quantos desses será que existem no planeta? Quantos escorregadores com balanços, escadas e pequenas casinhas de madeira se encontram espalhadas por todos os cantos do mundo? Muitos, com certeza. O suficiente para dar muito trabalho a quem quiser contar. Mas a questão não é essa. O que nos interessa nesse momento é que todos possuem uma característica em comum. São todo pintados em azul, amarelo e vermelho. Por quê? Simples. Lembra das crianças? Pois é, elas mesmas. Tudo por causa delas. Azul, amarelo e vermelho são as primeiras cores que elas reconhecem. As primeiras cores que aprendem o nome. Verde, rosa? Ora, isso é para quem quer se mostrar. Os simplistas mantêm a tradição. E ele era um simplista. Sempre foi. Seu detalhismo surgiu daí. Ou existe algo mais simples do que o mais imperceptível detalhe de uma situação?

Voltemos ao que nos interessa. O parque para crianças. Com três ou quatro anos, é um lugar perfeitamente normal para se estar. Ao longe era possível ver seu avô lendo o jornal, sempre ligeiramente abaixo da linha dos olhos. Talvez ele não fosse o único a ser um bom observador. Uma manhã de céu limpo, com o sol refletindo no prédio frente ao qual o parquinho se encontrava. Nada de incomum. Nada de especial, não fossem duas descobertas que ele estava prestes a fazer.


Primeira descoberta: O azul, o amarelo, o vermelho, e o branco


Ele estava intrigado. Palavra difícil para uma criança de três ou quatro anos. Mas é assim que ele estava. Intrigado. Como já sabemos, ele reparava em tudo. E ao ir para a escola e entrar em contato com um mundo completamente novo, pôde realmente aproveitar tudo que isso poderia oferecer-lhe. Bom, todos sabemos como é a vida de uma criança de três ou quatro anos numa escola. Ela come. Ela dorme. Ela brinca. Ela come de novo. E, o mais importante para nossa história, ela pinta. O problema era que ele, como dito antes, nunca apresentou o menor talento para pintura. Mesmo para uma criança de três ou quatro anos. Ele preferia, então, observar. Não que sua professora não houvesse notado o estranho comportamento. Não seria a primeira, tampouco a única. O que acontece é que depois de muito insistir, acabou por perceber que o garoto não gostava mesmo daquilo. Bom, não era que não gostasse. Simplesmente preferia observar o que os outros estavam pintando. Cada céu azul, cada sol amarelo, cada flor vermelha. Mas algo o deixou curioso. Curioso a ponto de deixá-lo intrigado. Havia um lápis que ninguém usava. Era o maior, e geralmente ficava largado dentro da caixa. Só era notado quando sumia, e consequentemente surgia um espaço vazio entre os lápis das mais variadas cores. Para que, então, servia aquele lápis branco?

Tal questionamento voltava sempre à sua mente. Uma criança de três ou quatro anos não tem muito no que pensar. Logo é possível dizer que isso ocupava boa parte de seus pensamentos. E nesse dia, no parque com escorregadores, balanços, escadas e casinhas de madeira, essa pergunta voltou. Levantou-se do chão espalmando as calças, e saindo do lugar de onde observava as outras crianças, dirigiu-se ao seu avô perguntando-lhe o que era o “branco”, e porque ninguém usava o tal lápis.

-Oras, - disse-lhe o avô – o branco é uma cor. Mas não é só uma cor. Ela é todas as cores juntas. Vou te mostrar. Vê aquele montinho de fios brancos ali naquela árvore? Aquilo ali é a casa de um bichinho muito bonito, chamado bicho-da-seda. Ele quando é novo, é apenas uma lagarta sem cor. Quando já é mais velho, faz essa casa branca para ele. E, quando finalmente sai de lá, é todo colorido. Então todas as outras cores estão dentro do branco, entendeu? O azul do céu, o amarelo do sol e o vermelho da flor que seus amigos desenham na verdade estão todos no branco, são todos parte dele. É por isso que ninguém usa o branco. As outras cores sumiriam dentro do branco. É como se uma grande nuvem descesse bem em cima desse parquinho colorido. Você não o veria, não é?


O avô encerrou com uma grande gargalhada, mostrando os dentes escondidos pela barba manchada.


E então,


Segunda descoberta: o azul, o amarelo, o vermelho e o inesperado


O pequenino menino voltou ao seu lugar, sentando-se no chão e sujando suas calças. Não que isso importasse para uma criança. Ainda mais para ele. Estava distraído admirando as outras crianças, e pensando no que o avô lhe tinha dito.


É importante ressaltar que mesmo ele tendo fascínio pelo que via, não menosprezava aquilo que ouvia, ou sentia. Nunca foi assim. Nem mesmo daquela vez.


O baque surdo foi surpreendente. Não pelo som em si. Mas sim pelo fato de estar bem ao seu lado. A reação foi imediata, como se soubesse inconscientemente que existia ali, junto daquele som, algo muito mais interessante para se ver do que naquele parquinho cheio de crianças. E ele estava certo. Ele nunca havia visto olhos tão bonitos. Tão calmos, ou mesmo tão íntimos. Nunca mais veria olhos como aquele. O mais incrível é que para ele, a beleza não estava na cor dos olhos. Na realidade, é a única cor da qual nunca se lembrou. A única que perdeu a importância frente ao sentimento existente naqueles olhos. A lembrança seguinte reside em seu avô, tampando-lhe os olhos e levando-o para o mais longe possível. Ele ainda pode sentir o toque suave e ao mesmo tempo áspero das mãos do avô. A textura rugosa da pele já antiga, com suas veias já reveladas pela cobertura fina. Mas era tarde. Ele lembraria daquela cena como se ocorresse em sua frente toda vez que desejasse. E a levaria consigo para sempre. O céu azul celeste. O prédio amarelo-ovo por causa do sol. A calçada vermelho sangue por causa do corpo estendido a seus pés. Era um fim. Mas apenas o começo.


...


Um pouco de Jazz para um momento de contemplação...



Miles Davis - Blue in Green

Uma bela pedida pra quem está afim de pensar um pouco na vida, deitar olhando pro teto, ou chamar aquela pessoa que você gosta pra dançar no meio da sala... ou simplesmente pra curtir... fica a seu critério...


E aqui estamos, uma vez mais

A maior pergunta a ser feita talvez não seja "como encarar a página em branco", mas sim como encarar a si mesmo. a página à sua frente não é nada mais do que a representação física do desafio que você é a si mesmo. Todas as dúvidas e certezas se misturam num momento de pura ansiedade, o instante em que tudo aquilo existente em seu imaginário pessoal converge em algo compreensível para alguém que não você. O ato de escrever pode ser descrito como uma terapia, uma arte, um trabalho ou uma fuga, mas nada a explica melhor do que seus próprios resultados. Nada o define melhor do que tudo aquilo que você mesmo gerou, ou será que o gerado foi você? Como saber que tudo que se coloca em uma página em branco não seja talvez a mais pura realidade, enquanto tudo aquilo que você crê verdadeiro não passe de uma mera ilusão? Poderia o escritor em si ser apenas o resultado do desespero de suas próprias criações, apenas um eco criado pela reverberação extrema de uma imaginação descontrolada? Nós podemos não ser nós mesmos, ou não apenas nós mesmos e sim vários "nós" ao mesmo tempo, como quem amarra os dois extremos da linha do tempo, unindo-as numa conclusão ilógica, de que na verdade tudo aquilo que se escreve é criação e criador, somos nós tanto quanto são eles, personagens no anseio de uma história a ser vivida pelas mãos de um gênio atormentado,e uma história a ser contada pela razão ilógica do ser humano que vive na tênue separação entre o irreal e o material...

Volta ao Lar



Bom, como deve ser do conhecimento do meio leitor que passa por aqui a cada 437 anos, há muito tempo não se postava nesse sítio. De qualquer maneira, com o início de uma nova etapa, resolvi incluir este singelo local nos meus "novos" antigos projetos. Então, pra começar, um vídeo que editei para um recital... espero que gostem.




Março/2008

O Décimo Sétimo Dia

Ele olhava a tudo pacientemente através da sua janela. Via como o mundo corria atrás de algo que nunca alcançava. Via como tudo parecia estranho. Via a tudo como se assistisse a um antigo programa de auditório em preto e branco. Em câmera lenta. Via os suaves nuances entre branco e preto. Via todos os dezoito tons de cinza que o olho humano é capaz de identificar. E neles percebia que existia algo mais além de preto e branco, certo e errado, seco ou molhado. O relógio havia soado às três horas da manhã. Mas isso havia dezessete dias. Ele não sabia mais que dia era. Não sabia dia do mês, da semana, do ano. Não que isso importasse. Algumas vezes fechava a janela, e as cortinas pesadas e escuras o impediam de saber sequer se era dia ou noite. Sentia-se perdido. Mas já se sentia assim quando sabia que dia era, que horas eram. Olhava os carros lá embaixo. Achava graça no fato de parecerem brinquedos de criança, tão pequenos que caberiam todos na palma de sua mão. Via as árvores balançando, e sentia o vento em seu rosto. Via as crianças brincando, e ria com elas. Quando se cansava de olhar o mundo lá embaixo, deitava-se e olhava para cima, para as nuvens. Brincava de procurar figuras nelas. Criava naqueles leves pedaços de algodão mundos imaginários, bem melhores que aquele em que vivia. Ao longe, podia ver o mar indo de encontro a rochas, explodindo com fúria, ou simplesmente ondulando ao seu encontro, de acordo com a maré. Ele gostava de ver tudo isso. Assistia a tudo como quem vê o mundo pela primeira vez. Mas já o havia visto por muitas vezes. Conhecia seus segredos. Conhecia a violência, conhecia o desprezo, a decepção. Provou o sabor amargo da traição, o agridoce da paixão, a ternura do amor. Ele conhecia tudo. E se lembrava muito bem de tudo. Apesar disso, não se sentia mais parte de tudo aquilo. As crianças, os carros, as árvores, o mar, o badalar do relógio, os dezoito tons de cinza. Mas era o mundo que não se lembrava mais dele. Dezessete dias haviam se passado. Ninguém apareceu. Ninguém telefonou. As contas já se acumulavam embaixo da porta. Logo não entraria mais nenhuma, e alguém perceberia. Ligariam para reclamar da falta de pagamento. Cortariam água, luz, telefone. Cancelariam cartão. Cadastro inexistente. Deixaria de existir novamente. Seria praticamente um indigente. Não se sentia mais parte daquele mundo. E o mundo não se lembrava mais dele. Então preferia não fazer mais parte desse mundo definitivamente. Todos viram o corpo no chão. Não é todo dia que alguém se joga de um prédio em uma das mais movimentadas avenidas da cidade. Ninguém o conhecia. Seus vizinhos nunca o tinham visto. Tinha família? Provavelmente não. Era só ele. Ele, contra todo o resto do mundo. Seria um indigente na morte, como o foi em vida. Mas por sorte, ou por azar, não se sabe ao certo, lembraram de ver no nome de quem as contas chegavam... aos poucos as pessoas foram saindo, deixando a novidade estirada no chão, com um jornal velho cobrindo-lhe o corpo deformado pela queda... enquanto isso, não se sabe aonde, um relógio soava... badalavam as três horas do décimo sétimo dia...

Escrito não terminado nº2

O que se faz quando as pessoas passam a incomodar? Não o incomodar como perturbar, mas o incomodar que sufoca, que traz agonia, sofrimento. O que se faz, então? Como agir quando se sente que não pertence ao seu próprio habitat natural? Quando, por assim dizer, se adquire consciência da massa e de seu próprio papel e também do papel da massa em si, indivíduos disformes, agindo como autômatos, apenas seguindo suas próprias rotinas pessoais e egoístas, ocorre por muitas vezes uma certa diferenciação. Se o ser humando só existe em sociedade, o que nos tornamos quando não nos sentimos parte da mesma? Seríamos considerados párias, excluídos do chamado "mundo real" construído por mentes sem rostos, sem identidade, formadas por instintos irracionais, não animais, mas instintos humanos, consumismo, depredação, trapaça, competição selvagem, sexo desmotivado. Mas talvez a questão que permanece não é se seríamos excluídos, mas sim se teríamos tanto desejo quanto condição de viver nessa realidade, de readaptar-nos a uma existência vazia sem significado, motivo ou propósito.

novembro/2006

A prisão que me cerca

A prisão que me cerca

Não é feita de aço e pedras

A caixa em que me encerro

Não foi construída por mãos.

Minha prisão é a minha vida,

Meus atos, meus anseios,

Minha correntes são feitas de desejos,

E o grilhão q me prende é foi forjado em carne e osso

Um pensamento livre,

Leve como um pássaro,

porém com a força da terra em que pisa,

É a vítima desta sina.

Entretida, coibida,

Enganada, sussurradas

São as idéias que me fogem à garganta,

Garganta que sangra,

Com um grito de liberdade.

A vontade uma vez mais proibida,

sufocada por aquilo que sou,

que a sociedade me tornou,

pelo rótulo que me foi imposto,

Hoje a vida é um transtorno

(...)



agosto/2006

Sombras na parede

A sombras que vejo na parede me contam uma história diferente. Uma história diferente da que eu queria ouvir. O tempo passa. Tic, tic, tic... tac? Por quê? Qual o motivo? O que vejo é o que tenho, sombras, sombras na parede, sombras que me dizem que estou sozinho, sombras que me lembram que sempre estive sozinho. Um antigo conto fala sobre pessoas que passaram a vida enxergando sombras, e não quiseram acreditar na realidade quando tiveram a oportunidade. Comigo é diferente. Eu vejo nas sombras a verdade que ignoro na minha realidade. Elas me contam os segredos da vida. Elas me dizem tudo aquilo em que não quero acreditar. Elas me dizem que tudo que faço, o modo como ajo, tudo que vejo, o jeito como te desejo, tudo é terapia, tudo é uma alegria, finjida, cretina, que embaça, atrapalha, me faz crer que é tudo real, que eu não estou sozinho. (...)

É, e é tudo que precisa ser

É um tanto estranho quando olhas ao redor, e não reconheces a mais nada nem ninguém. Mas é mais estranho ainda quando olhas para ti mesmo, e não se é capaz de reconhecer. Quando se para, e tenta-se observar e entender o que aconteceu durante toda tua vida, que te levou para onde está agora, e não consegue. Olhas para trás, e não entendes o motivo pelo qual tua vida passou, sem que tenhas participado dela. Não vê que passou todos os anos em branco, apenas seguindo o roteiro, apenas fazendo o que acreditava ser o certo, mantendo padrões, impressões e ações que condiziam com o mundo ao teu redor. Que passou por todas suas experiências, sofrendo, rindo, ou de qualquer outra maneira, apenas observando, como que do lado de fora de uma janela. Uma janela que leva à tua realidade, tua existência pessoal. E assim, dessa maneira, chega à conclusão de que tudo que viveu, tudo que experimentou, tudo que usufruiu, pesou tanto quanto uma pena, e foi tão profundo quanto um pires. Então finalmente acordas. Percebes então que é hora de quebrar as barreiras que te separam de tua vida, e passar a ser responsável por teus próprios atos, passar a responder pelo tudo que faz, seja de acordo com o que o mundo à sua volta pensa ou não. Percebe que não deves importar-te com o que os outros pensam, não deve prender sua felicidade às opiniões de pessoas que vivem realidades diferentes. Não importa. E é só isso. As coisas simplesmente são, e isso é tudo que elas precisam ser. Não importam as pessoas ao seu redor, não importa como estas o vêem, não importa se te criticam. Muito menos importa se te julgam pela maneira como te vestes, pelas tuas companhias, pela tua aparência, pelo modo como falas. Nada disso é você realmente. Tudo isso é mutável, tudo isso se transforma de um momento para o outro. Você é quem você é. Simples. Seus pensamentos, sua convicção, sua coragem, seus sentimentos. Todo o resto pode ser tirado de você. Mas ninguém poderá tirar você de você. Nem você mesmo. Você será sempre você. Mesmo quando você discordar de si mesmo. Aliás, é até aconselhável discordar de si mesmo. Não existe ninguém neste teu mundo, nesta tua realidade a quem devas satisfações. Nem a ti mesmo. Você pode passar a vida acreditando que tudo ao teu redor é uma verdade, porque assim te disseram, e porque dessa maneira tu viveste. Mas pode vir o dia em que tudo em que acredita, tudo que tens como verdade absoluta e correto, pode estar errado. E, nesse dia, tudo que restará a você, será você mesmo.

Resolução

Tudo o que sinto nesse momento me é estranho. Um vazio, em seu amplo significado. Um nada, um ambiente inócuo, onde nada existe. Mas me pergunto por quê. Se realmente significastes algo para mim, por que não sinto tua falta? Por que não sinto saudades tuas? Saudades sinto sim, de tudo que imaginei para nós. Mas não há como sentir saudades de algo que nunca conheci. Se um dia sonhei com nosso futuro, realmente foi tudo apenas um sonho, e percebo isso agora. Tudo fruto de minha imaginação, de meus desejos, da perfeita idealização com que pensava em nós dois. Mas este vazio não existe por ter tomado o lugar de algo que tenha perdido. Ele existe por nada te-lo precedido. Nunca existiu nada onde ele se abriga, e nunca houve chance para que houvesse. Mas do que tudo, pergunto-me o motivo de você não representar nada em minha vida. Sempre busquei a paixão, o amor, em toda oportunidade que se mostrasse. Mas contigo foi diferente. Não me entreguei. Não me deixei levar. Não te amei. E por isso o que tivemos foi vazio, insignificante perante o que já experimentei. O que senti por você foi ansiedade, medo, confusão, mas nunca paixão. Sempre esperei que ela aparecesse, mas desta vez ela mostrou-se reclusa, e creio que foi melhor assim. Gostaria que houvesse mais palavras para escrever nossa história. Mas infelizmente não é dessa maneira que aconteceu. Simplesmente aconteceu. Mas ao contrário das coisas que tomam forma por si mesmas, esta não teve um futuro brilhante. Nunca pensei em dizer isto para nenhuma muçher que passasse pela minha vida. Mas você foi apenas mais uma.

Escrito sem nome nº1

Não sei como te dizer, mas é isso que sinto, em tudo que pressinto, a possibilidade do fim, mas como crer no fim, se tampouco houve um começo? Como dizer que algo que nunca nunca surgiu pode chegar à extinção? Como posso eu crer que o que sinto hoje são saudades de você, quando nunca a tive para mim de verdade, se tudo que fomos foi apenas fruto da minha imaginação, da minha vontade, exímia fonte de ilusões? Como dizer que um dia sonhei com a paixão entre nós, se foi tudo mentira? Como posso eu lembrar do suave toque de tua pele na minha, o doce sabor de teus beijos, o calor de teu corpo, se foi tudo um sonho, uma enganação? Uma impressão errada? É tudo o que fomos? É esse todo o nosso significado? Pois não pra mim. Não existe erro. Não existem "impressões erradas". Existe o temor do real, existe o medo da verdade. Crê que foi isso? Aceita? Nunca. Veja que nada disso tem um significado realmente. É apenas o desejo profundo da sublime perfeição, a realização do desejo. O fim do cortejo, quando sobram apenas a solidão e a lembrança. É o (...)

Cansei...

Cansei. Cansei de mim, cansei de ti. Cansei de tentar ser feliz. Cansei de não conseguir. Cansei de fazer tudo pelas outras pessoas, e não ver ninguém se esforçando para fazê-las por mim. Cansei de ver a vida se desenrolar à minha frente e não conseguir acompanhar. Cansei de me importar com os outros. Cansei de pensar que um dia considerei a possibilidade de existir no mundo alguém pra me fazer feliz. Cansei de acreditar em fantasias, em mentiras que eu mesmo criei. Cansei de passar despercebido. Cansei de tirarem proveito de mim. Cansei de te desejar, cansei de querer te beijar, cansei de imaginar se você pensa em mim, cansei de não saber quem você é. Cansei de não saber se você existe. Cansei de inventar motivos pra acordar todo dia de manhã. Cansei de chorar porque sabia que você nunca me amou, nem sequer existiu. Cansei de procurar distrações pra dissipar as provas de uma existência inútil, que ninguém se importaria de deixasse de existir de um dia pro outro. Cansei de ser fútil. Cansei de ter meus carinhos negados. Cansei de ter meu amor menosprezado. Cansei de ver o mundo a minha volta como um filme, do qual eu era apenas espectador. Cansei de não ser sequer um coadjuvante. Cansei de te imaginar em meus braços, de pensar em como seria tocar-te os lábios sem que você fugisse. Cansei de esconder o que sinto. Cansei de pôr em palavras escritas aquilo que eu mesmo não me permito dizer. Cansei de mim, cansei de ti. Cansei de ser visto como mero objeto decorativo. Cansei de não fazer diferença, cansei de SER indiferente, cansei de sentir a indiferença na minha própria pele. Cansei de mim, cansei de ti. Cansei da vida, e acredito que ela também tenha se cansado de mim. Cansei de sofrer. Cansei de não existir um ponto final. Cansei desta penosa jornada. Cansei de aguentar tanto, já não sou tão forte como antes. Cansei de mim, cansei de ti. Cansei da vida, e acredito que ela tenha se cansado de mim também. Cansei de não poder dizer adeus a tudo isso. Agora já não estou tão cansado. Adeus.

Carta

Oi. Pode parecer estranho, mas não imagino jeito melhor de começar uma carta que em um simples "oi". Não que eu tenha muita experiência em escrever cartas. A última vez que fiz isso estava na 1ª série, e realmente duvido do fato dela ter chegado onde devia. Mas tudo bem, deixa pra lá... Quando eu resolvi que ia te mandar estes presentes, eu sabia que não podiam ir sozinhos. Eu sabia que ia ter que te escrever, e todo o necessário. Mas na verdade esse é o meu problema nesse momento: eu tenho tanto e tão pouco pra te falar. Por um lado, quero te dizer tudo o que sinto por você, tudo o que você significa pra mim. Por outro, parece que quase tudo que ainda que ainda tenho pra te dizer ficou implícito em algum momento, e o que não ficou é difícil de ser posto em palavras. Mas na verdade parece que o que me impede de dizer tudo o que quero é nada mais do que um pouco de medo. Medo de errar. Com você. De novo. Medo de falar demais. De dizer de menos. Mas acontece que, se continuar assim, não vou conseguir dizer mais nada. Não vou conseguir dizer que até hoje não encontrei alguém tão especial quanto você; que eu adorava ficar apenas ao seu lado, mas que gostei mais ainda quando nos tornamos mais do que apenas uma boa companhia; que desde a primeira vez que te vi eu sabia que precisava estar ao seu lado; que toda vez que te vejo triste, choro por dentro; que toda vez que andava na rua, prestava atenção tentando te ver, mesmo que fosse de relance; que adorei como você não ficou esperando uma atitude minha; que ainda lembro dos sabores de sorvete que nós estávamos tomando quando demos nosso primeiro beijo; que sempre que sentia sua falta lembrava disso (e ainda o faço); que toda vez que diz que sente minha falta sinto um aperto no coração; que queria estar aí, ao seu lado, abraçado a você, enquanto você estivesse lendo essa carta em voz alta para nós dois ouvirmos. Mas espero que todo esse receio seja infundado. Espero ainda poder te dizer que adoro você do jeito que é, com todas e quaisquer falhas e acertos, afinal somos todos humanos, com o sorriso mais encantador que já vi, com a boca mais doce de todo o mundo, e os olhos mais lindos. Caso ainda não tenha ficado claro pra você, eu te adoro, e te desejo todas as felicidades desse mundo. Na verdade, o que sinto por você vai muito mias além, mas quando for para dizer que te amo, que seja quando estivermos juntos, e não através de um papel. Te deixo aqui com um beijo, minha linda. Até mais.

Poesia sem nome nº1

Quando tua boca secar

serei o 1º a vir te beijar

Quando você triste ficar

virei correndo para te agradar

Quando algo você temer

serei o 1º a te defender

Pois, quando tudo mais se vai

você é a única coisa que importa

para mim,

mais que a vida,

mais que a morte,

mais que o céu,

mais que o mar,

mais que o chão que piso,

mais que tudo que me envolve

nesta vida fútil.

Mais q tudo

eu amo você.


2001/2002

Débil

O frio era tão intenso que ela não podia agüentar. A fraca lareira existente em seu quarto não mais podia aquecê-la. O insistente barulho da chuva batendo em sua janela tornava a espera ainda mais longa. Ela desejava que ele não tivesse ido embora. Gostaria de ter sido capaz de fazer algo para impedi-lo de deixá-la ali, sozinha, ainda entre os lençóis onde eles, pela última vez, mais por um ato de loucura e raiva do que por amor, haviam se tornado um só, cada um posse do outro, pondo fisicamente para o amante tudo que tinham guardado dentro de si. E o cheiro dele ainda permanecia em seus lençóis. O travesseiro ainda mantinha a forma dele. Ele ainda estava presente nela, em corpo e alma. E ela podia sentir isso. E isso a fazia sentir como um nada. Ele nem sequer disse adeus, disse ela a si mesma. Ela desejava que ele o tivesse feito. Gostaria de mais uma vez ouvir o som de sua voz, apesar de tê-la ecoando em sua mente. Porém queria ouvi-la pronunciando palavras doces, não aquelas que foram ditas na noite anterior. Ela gostaria de poder apagar tudo que havia dito para seu homem na noite anterior. E desejava, mais uma vez, que não estivesse sozinha ente os lençóis empregnados com seu cheiro.

Porque ela fez aquilo?, ele se perguntava enquanto o sol nascia no horizonte. Porque ela teria agido daquela maneira na noite anterior? O frio era de cortar a espinha, porém ele se recusava a voltar para ela. Não queria mais estar no mesmo lugar que aquela mulher, o maior amor de sua vida, que agora havia se tornado o motivo pelo qual ele desprezava a si mesmo. Ele pensava no que havia acontecido na noite anterior.

Mais um dia havia se passado, e ele volta à sua casa onde sabe que poderá encontrar o único motivo que tem para continuar lutando para sobreviver - pois sabe que sem ela morreria. Entra em sua casa encharcado, pois a chuva não dá trégua nem para os amantes mais ardorosos. Ele vive com ela em seus pensamentos, passa o dia inteiro pensando apenas nos breves – porém vívidos – momentos que passará com ela. Mas ao chegar em casa, a encontra de forma inusitada. Ele entra em casa, estranhando que ela não havia ido recebê-lo à porta com um suave beijo, como de costume. E, à medida que entra em casa, percebe o motivo. Ela jaz imóvel em sua cama. Ele logo entende o que aconteceu. E também compreende o porquê. Afinal, que tipo de mulher não entraria em depressão ao perder um filho? Ele corre para salvá-la, para tentar livrá-la da morte certa. Ele faz de tudo, a joga em água fria, tenta fazê-la respirar, forçar que seu organismo liberasse todo o veneno, físico e mental que exista em seu corpo. Ele finalmente consegue. Ela dá sinais de consciência. Ela olha em volta à procura de uma explicação para sua tentativa ter sido impedida. Ela o vê, em prantos e gargalhadas graças ao fato de ela ter voltado para ele. Ainda tonta, ela o vê, e percebe que seu desejo de morte não foi realizado. Ela se revolta contra ele. Se debate, tentando afastar de si aquele homem que a impediu de reencontrar em uma vida póstuma a criança que havia perdido. Ela sente ódio daquela figura, daquele ser que, com tanto esforço a fez voltar a uma vida de sofrimentos. Para que?, ela se pergunta Para que ele me trouxe de volta? Dentro dela então se reacende a chama da paixão que sente por ele, mas o ódio ainda é mais forte. Ele percebe que ela não queria voltar. Mas , apesar de tudo, ainda não compreende como ela poderia querer deixá-lo. Como teria coragem de largá-lo à própria sorte, sem o que mais o dava forças. E isso acendeu dentro dele um sentimento amargo, diferente de tudo que ele conhecia. Mas ele ainda a amava. E ele sabia disso. Sabia também que ela o amava, e ela sabia que ele só fizera aquilo porque a amava. Mas isso não importava para ela. Ela ainda o atacava, em prantos. Ele então a segurou. Pela primeira vez em muito tempo, os olhos dos dois amantes se conectaram. Entenderam, sem que uma única palavra fosse necessária, o que o outro sentia. E isso reacendeu a chama da paixão existente dentro dos dois, e fez com que eles se amassem durante a noite inteira, ainda com a fúria e a amargura presentes em suas mentes, como se nunca houvessem se tocado antes. Anjos e demônios se voltaram para aquelas duas almas, que, em suas profundezas, brilhavam por ter achado a sua correspondente. E isso perdurou até o quase amanhecer. Ele, arrependido de ter sido dominado por seus sentimentos, deixou-a, envergonhado, à cama, em meio aos lençóis onde se amaram eternamente. Ela, débil de amor, não teve forças para fazê-lo ficar, e se deixou estar à cama, em meio aos lençóis onde se amaram eternamente.

Não Diria Te Amo

Não diria te amo,
Porque Te Amo não expressa o que
Sinto por você.
Você é mais importante,
Você é alguém que me faz sentir bem.
O que sinto por você não é amor,
Até porque não posso me permitir
Aproximar-me de ti, e muito menos
Conceber o contrário.
O que sinto por você não é Amor,
Mas sim uma mistura de sentimentos
Dentre os quais se fazem mais fortes a Paixão,
A Saudade e a Tristeza.
Paixão pois o que sinto por você não pode ser descrito como nada mais.
Você foi alguém
Que, apesar de tudo o que nos aconteceu,
Dos segredos que compartilhamos e
Emoções que vivemciamos, escolheu continuar
Ao meu lado, me apoiando em todas as
Ocasiões.
Saudade pois todo momento que passo sem ti é infeliz.
Às vezes me pego pensando em você.
Em como fala e age comigo, em como
Nos acariciamos.
Às vezes me pego pensando
Em teus olhos, os quais
Busco incessantemente em
Meus sonhos.
Às vezes me pego pensando
Em tua boca, cujos lábios
Doces desejo beijar incessantemente.
Às vezes me pego pensando no
Toque macio de suas mãos
Ao tocarem as minhas.
ÀS vezes me pego pensando
Em teus cabelos, com suas
Suaves ondulações, nas quais
Me perco por eras.
Tristeza pois em breve hei de
Deixá-la, e abandonar
Tudo que construímos
Neste pequeno espaço de tempo.
Tudo que tenho para dizer-te
É que você vai sempre ser
Uma pessoa muito importante
Em minha vida, e que ficará
Sempre guardada em meu coração.

Kayo, julho/2005