Quem decide o que é humano ou não? A quem foi dado o direito, ou mesmo a simples permissão, de julgar este ou aquele indigno de existência, de simplesmente caracterizá-lo por sub-humano? Porque tornou-se tão comum que, caminhando por uma rua qualquer, ignoremos como simples paisagem outros tão parecidos com nós mesmos? Aquela pessoa envolta em um saco de comida de cachorro, aquela criança que tenta se aquecer em um cobertor imundo e mal-cheiroso, ou aquele homem que se encolhe sobre um carroça dura de madeira, deixam de ser seres humanos e são transferidos para um estado de semi ou sub-humanidade, onde passam a não mais existir, pois fundem-se àquilo que possuem à sua volta: passam a ser apenas um saco de comida de cachorro, um cobertor imundo e uma carroça velha. A carne que ali luta para não definhar de fome, e os ossos que tremem tentando não se render ao ar gélido de mais uma noite fria e sem esperanças passam a não existir mais, porquê? Porquê a vergonha de nossos pobres, porquê a resistência em reconhecer sua existência? É tamanha a humilhação em reconhecer que falhamos com nossos semelhantes? Julgamo-nos tão superiores àqueles que habitam os cantos escuros de nossas ruas, de nossas cidades, de nossas mentes. Será por possuirmos um mero nível de educação? Porque sabemos ler, escrever? Isso nos torna realmente tão mais importantes, mais humanos, ou mesmo mais reais que tanto outros que não são como nós, que não possuem um assim-dito conhecimento sobre tudo aquilo que julgamos importante? A realidade é supervalorizada. E assim o digo, pois ela assim como tudo aquilo que julgamos como certo em nossas vidas, é absolutamente relativo. A minha realidade não é a sua realidade, que não é igual à realidade do seu próximo, e assim por diante. O mesmo conhecimento que para você é essencial, para qualquer outra pessoa pode não passar de informação inútil, sem valor. E a recíproca é verdadeira.
Como saber, inclusive, quem são esses que vivem entre as sombras de cada prédio de cada cidade imunda e vil? Como acreditar que aquele escondido entre trapos é pior do que você, um vazio sem conhecimento ou idéias próprias, quando após tanto tempo vendo-o dormir sempre que passa, você o pega lendo um livro? Escrevendo, ou mesmo apreciando conscientemente uma revista de arte? O absurdo é palpável, mas verdadeiro. A enorme barreira que julgamos nos separar daqueles que pretensamente “sub-habitam” nossos espaços cotidianos começa a ruir, pouco a pouco, apenas para desmoronar definitivamente quando descobrimos, ocasionalmente, que entre estes existem professores, policiais, e tantos outros que, algum tempo antes, passariam por você despercebidamente, mas dessa vez por ser, segundo seu próprio julgamento, seu semelhante.
A pior cegueira não é daquele que não deseja ver, ou conhecer. A pior cegueira é a ignorância consciente, a ignorância que submete tudo aquilo desconhecido ao status de nada, de inexistente. E a pior ignorância é aquela que simplesmente não se dá ao trabalho de reconhecer que ali, sentado no chão frio e coberto por jornais e trapos imundos, está o reflexo da própria sociedade que cultiva, a figura espelhada e negativa de sua própria imagem.

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